sábado, 16 de agosto de 2014

Os cacos

Para Margarida Sônia



Custódio abriu os dois olhos no mesmo instante em que os violinos começaram a jorrar do aparelho e fluir pelo leito de dois lugares, dos quais apenas um vinha sendo ocupado havia mais de ano. Deixou-se ficar na mesma posição em que acordara até a melodia acabar e espetou o dedo na tela do aparelho a tempo de impedir que ela fosse reproduzida. Bocejou, espreguiçou, sentou-se na cama, calçou as pantufas, vestiu o roupão, caminhou até o banheiro, lavou o rosto, escovou os dentes, enxugou o rosto e as mãos – primeiro a direita, depois a esquerda. Ligou o televisor da sala, calibrou o volume no quinto quadrado, acendeu a luz da cozinha e começou a dispor os ingredientes do café sobre o balcão: primeiro a geléia, depois o iogurte, em terceiro lugar o depósito de queijo e presunto, finalmente o pacote de pão. Conferiu a folhinha da parede: quinta-feira; mamão. Passou a geléia em duas fatias de pão, inseriu entre elas uma de queijo dobrada ao meio e, dentro desta, meia de presunto cortado com o auxílio da régua. Levou o sanduíche ao forno, partiu o mamão ao meio, tomou o iogurte com colher de sobremesa e comeu a fruta com colher de sopa, retirou o sanduíche do forno com o auxílio de duas folhas de papel-toalha sobrepostas e dobradas ao meio. Comeu, dobrou o papel-toalha em quatro partes, esfregou-o nos lábios, dobrou-o em oito partes, limpou as pontas dos dedos. Desligou o televisor, voltou ao banheiro, despiu-se e se banhou em onze minutos e treze segundos. Enxugou-se da cabeça aos pés, vestiu-se dos pés à cabeça, pegou a pasta no escritório e passou na cozinha antes de sair para conferir a porta da geladeira, a válvula do forno e tomar um copo com água que

— Merda!

escorregou do roteiro e caiu no chão.



Interrompemos a narração para um mergulho de cinco segundos na mente da personagem. Voltaremos dentro de instantes com o nosso enredo normal.



e agora? meu deus! como foi que – ? calma, custódio, não entre em pânico, lembre-se do que disse margarida em agosto, vamos lá. primeiro, a vassoura; depois, a pá – recolha os cacos na pá com o auxílio da vassoura, caminhe sem pressa até o lixeiro, abra a tampa, jogue os cacos, feche a tampa, devolva a vassoura e a pá aos seus respectivos lugares, lave as mãos e saia de fininho. ai que droga! por que foi que – ? estou vendo um pedaço maior, outros dois menores. não, custódio, não faça isso! a vassoura, a pá – o giro da chave na fechadura, a porta traçando um ângulo reto no chão, o homem em pânico



— Bom dia, Seu Custódio.


— O senhor tá pálido. Ai, meu deus, foi por isso outra vez? Tenha calma, homem, e deixe comigo que eu

— Não! Não limpe. Eu tenho que

— ir pro trabalho. Não tá vendo? Já passa da hora.

— Mas

— Cuide, homem! Vai querer se atrasar prum compromisso?!

O homem cuidou, hesitante e inquieto, mas cuidou. Desceu pelas escadas, não encontrou a chave do carro no bolso lateral direito da calça, voltou pelo elevador de serviço, encontrou Guiomar na porta – chaveiro pendendo da ponta do dedo. Espiou o apartamento sobre o ombro dela, topou com o indicador apontando o caminho da rua. Desceu pelo elevador social, deu a volta na garagem antes de ganhar a rua, deu a volta no quarteirão antes de ganhar a BR, entrou no primeiro contorno à esquerda, retomou o caminho no mesmo contorno, respirou fundo nos dois contornos seguintes, pegou a Tancredo dedilhando a direção, subiu a Mandacaru cantarolando boi boi boi boi da careta preta, sentou a mão na buzina quando o trânsito engarrafou no Tambiá, mudou a canção para as estrelinhas piscam e piscam e piscam no cruzamento da TV Cabo Branco, desceu a ladeira da garagem de olhos arregalados para o carro da frente e respirou com alívio ao conferir que a quarta vaga lateral esquerda estava, como de hábito, livre. Desceu do carro, trancou a porta, conferiu o bagageiro e a luz interna, contou quinze passos até o computador do ponto, espetou o dedo no leitor, sorriu para a hora exibida na tela e (sexta-feira!) subiu pelas escadas. Térreo, primeiro piso, quarenta passos até a sala de sempre desde cinco anos antes, desejou sete vezes bom dia e iniciou a máquina. Primeiro o navegador, depois o sistema, por fim o gerenciador de arquivos; então, os processos – por ordem de entrada, enfileirados, fitas brancas e azuis alternadamente para atar os volumes por entre as duas entradas de bailarina; então, a parte mais amarga de preencher as lacunas do sistema de autuação e distribuição até que, enfim, a parte mais doce de carimbar e numerar cada página, uma após outra, sem parar nem voltar, a partir de 2: 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 35 36 37 38 39 40 41 42 43 44 45 46 47 48 49 50 51 52 53 54 55 56 57 58 59 60 61 62 63 64 65 66 opa!, certidão, conclusão. Então, outro, já numerado até 145, daí por diante: 146, 147, 148, 149, 150, 151, 152, 153, 154, 155, 156, 157, 158, 159, 160, 161, 162, 163, 164, 165, 167, 168, 169, 170, 171. E outros tantos ao longo de sete horas de expediente ininterrupto que não vale a pena ocupar o leitor com a tediosa repetição do elenco, muito embora valha a pena registrar que: às nove e doze, Custódio fez pausa para descascar uma laranja-cravo e comer cada bago depois de arrancar as sementes uma a uma, tomar três dedos de café com duas gotas de adoçante e fazer a higiene em seis minutos e vinte segundos; às doze e nove, fizeram uma pausa no trabalho de Custódio para uma reunião onde se fizeram duas preleções maçantes e trinta e seis comentários ineficientes. Dedo no ponto às catorze nem um segundo a mais ou a menos, meia porção de risoto de legumes com suco de laranja sem gelo como toda sexta-feira no doce sonho de sempre, trânsito fluindo a caminho de casa e do plano da tarde: banho, sesta de meia hora, caminhada na praia e sessão das dezoito e trinta no cinema. Já no edifício, guardou o carro a ré, subiu pelo elevador de serviço, caminhou sete passos até a porta e, pronto para suspirar em face do fim de semana que se descortinava em ordem e progresso, passou direto para o banheiro, vestiu o pijama dali a dezessete minutos e já ia pegando no sono quando – suspirou, saltou sobre o colchão e lembrou:

 — Os cacos!

Inspirou, expirou, inspirou, expirou, inspirou, expirou o ar e se rendeu à força terrível. Margarida só ficaria sabendo se ele contasse na sessão seguinte. Levantou-se, foi até o lixeiro da cozinha e, aberta a tampa, deu com a sacolinha de plástico com as alças atadas. Boa Guiomar. Tirou a sacola, deitou os cacos do copo sobre o balcão da pia, puxou o banquinho e, com a alegria de menino-a-quem-devolvem-o-pirulito estampada no rosto, começou a contá-los um a um.

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