domingo, 31 de agosto de 2014

Quando Nonô passar




Uma semana que a velhinha simpática não dava as caras no caixa e a mente já fabricava catástrofes. Estressada como ela vinha e com aquela idade. Poucos dias antes de desaparecer, tinha perdido a paciência com a atendente porque a moça hesitara entre largar um cliente no meio da fatia de bolo e atender ao seu chamado para passar o cartão de outro na maquineta de débito. “Não entendo! Não entendo! Comecei a vida como operária e as coisas não eram desse jeito!” – esbravejou. Teria sofrido um infarto, ou apenas cedera à pressão do filho mais preocupado para descansar por uns dias na casa da filha mais querida em outro estado? Afinal, por que continuar trabalhando daquela forma se já não havia mais necessidade? Quis perguntar por ela, mas talvez fosse melhor evitar eventuais espinhos. Em todo caso, não havia ali qualquer sinal de luto, o que já era um bom indício. Até que, no oitavo dia:

— Dona Ivone, de volta!

— Oi, meu filho, andei por aí.

O sorriso de colegial estampado no rosto contrastava com a habitual testa franzida.

— Tirou férias?

— Uns dias de folga. Também sou filha de deus, né?

— E viajou?

— Fui realizar o sonho da minha vida.

— Que bom! Foi a Paris?

— Que Paris que nada. Fui conhecer a terra de Nonô.

— Seu marido?

— Muito melhor que isso,

Pausa para um embevecido suspiro e o anúncio do total a pagar.

— meu querido Juscelino Kubitschek!

— Juscelino, o presidente?

Ele mesmo. Eu e outras trinta idosas.

Débito, por favor. Minha avó também era fã de Juscelino.

— Ah, só quem viveu aquela época pode explicar. Foi outro tempo. Dourado! A gente era jovem e Juscelino era um pão.

Duas gargalhadas.

— Sua via, obrigada. Estava tudo lá, a casa onde ele nasceu, a igrejinha onde ele foi batizado, a escolinha onde ele estudou...

Não me diga que até Juscelino deu o ar da graça.

Infelizmente, não. Mas me disseram que todo ano tem um dia em que ele dá uma voltinha pela rua.

E a senhora, não ficou curiosa pra vê-lo passar?

— Como não?! Cá pra nós,

E baixando a voz como quem conspira contra a madre superiora:

já estou tomando as providências. Vou radicalizar. Já trabalhei demais na vida. Até o Natal, largo isso aqui com os filhos e faço as malas.

— Uma fuga?

— Vou me mudar pra Diamantina.

— Da-na-di-nha.

Quando Nonô passar, eu quero estar no meu lugar.

Tem meu apoio. Precisa de ajuda para executar o plano?

— Deixe comigo. Já tenho tudo aqui, na caixola.

Sorrisos trocados.

Até amanhã, Dona Ivone.

E ela, com o ar de adolescente em primeira paixão:

Só me faça um favor, não conte nada às outras trinta.


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