domingo, 11 de janeiro de 2015

A blasfemadíssima trindade





Então foi que Alá, ao ter notícia de que seu nome estava correndo os quatro cantos do mundo, encarnou em um dromedário no deserto da Arábia e se dirigiu a Meca para inteirar-se da situação.
Chegando lá, ouviu a conversa de um grupo de peregrinos que comentavam preocupados a atuação dos vingadores de Maomé em Paris e, sentindo pesar a corcova, exclamou:
— Maldito seja o dia em que me revelei aos humanos!
Então, metamorfoseando-se num melro, voou às pressas em direção à França para repreender os seguidores que usaram seu nome em sangue. E cantava pelos ares: “antes mil humoristas que matam de rir / que um amigo da onça que mata e não ri”.
Quando sobrevoava a Itália, encontrou um trinta-réis-ártico que voava em direção ao norte e pensou consigo: “deve ser Deus que retorna de alguma vistoria no sul, vou chamá-lo e ouvir seu conselho”.
— Ó, colega Deus, se fores tu que me cruzas a rota, plana um pouco e pousa comigo sobre aquele monte abaixo para que te peça um conselho, pois és mais velho e estás no ramo há mais tempo que eu.
Ouvindo isso, o trinta-réis-ártico foi ao encontro do melro e lhe disse:
— Ó, divino Alá, assim seja se é da tua vontade. Como deves presumir, já estou sabendo de tudo que houve e de tudo que haverá. O teu problema de hoje já foi e ainda é meu também.
As aves pousaram no grande e alvo monte abaixo. E Deus prosseguiu:
— Agora mesmo, estou voltando de uma visita ao Brasil. Vi hoje cedo que lá haviam estabelecido um culto relaxado a mim, que não dava muita trela para os padres, e decidi visitar o país.
— És feliz, se tens adeptos que não escutam as sandices dos imanes.
— Bem vejo que ainda és ingênuo. Quando cheguei lá, já se havia passado metade do meu dia, o que são quinhentos anos aqui. Descobri que meus seguidores estão ficando avessos ao riso e levando a sério as tolas proibições.
— Então, choremos juntos a nossa desventura, pois que nossos piores inimigos são nossos melhores amigos.
Mas Deus propôs a Alá que voassem juntos até o Neguev para recarregar os poderes em sua terra natal e ouvir o que Javé, mais velho e experiente que os dois, tinha a dizer.
Assim fizeram. Chegando ao deserto, encontraram a estátua de Javé soterrada e um riacho de lágrimas escorria de sua face, afluindo para um rio de leite e mel que desaguava no Mar Morto.
— Ó, divino Javé, tu que és mais velho e estás no ramo há mais tempo que nós, tu que tudo sabes e conheces a nossa desventura antes mesmo que dela falemos, diz-nos uma palavra de sabedoria.
— Bem vejo que vós ainda sois ingênuos. Pois eu vivia em meu templo com outros deuses e deusas celebrando a fertilidade até que aqueles loucos que cercavam Josias me apartaram do meu corpo, destruíram minhas companhias e sepultaram meu espírito na tinta de uma esdrúxula lei a que até hoje muitos dão cabimento.
Os três caíram então em silêncio, um silêncio que fez murchar toda a vida que lhes cercava num raio de mil e um quilômetros. Até que, sem nenhuma palavra pronunciar, pensaram consigo entre si ao mesmo tempo:
"Deixemos esse planeta e abandonemos essas criaturas à sua própria sorte. Conosco ou sem nós, meterão sempre os pés pelas mãos até que lhes sobrevenha a mesma desgraça que abateu os dinos. Eis a nossa maldição!" 
Pensando isso, fundiram-se numa só bola de fogo que a terra cuspiu em velocidade indescritível por medidas humanas. E a bola desapareceu no vasto vácuo sem deixar rastro no céu. 

*

Nenhum comentário:

Postar um comentário